Contra a futurologia
O libanês Nassim Taleb, 48 anos, doutor em probabilidade pela Universidade de
Paris, diz que é patente loucura tomar decisões com base nos modelos matemáticos
usados para fazer previsões sobre o comportamento do mercado financeiro. No
entanto, é exatamente esse o passatempo preferido em Wall Street. Ele é expoente
de uma corrente de economistas que se recusam a fazer o papel de futurólogos.
"Ninguém espera que um médico saiba se haverá uma epidemia de sarampo no próximo
ano ou que um biólogo diga como evoluirá a tromba dos elefantes, mas muita gente
espera que um economista saiba exatamente quando virá a próxima crise da bolsa
ou a próxima recessão", diz Timothy Taylor, economista da Universidade Stanford.
Nassim Taleb trabalhou vinte anos em Wall Street, é professor de ciências das
incertezas na Universidade Nova York e autor de The Black Swan (A Lógica do
Cisne Negro, Best Seller). A editora Monica Weinberg o ouviu sobre sua aversão
às previsões e sobre a atual crise de liquidez nos mercados financeiros.
Da riqueza ao pó – As instituições financeiras, apesar de se apresentarem como
sólidas e conservadoras, vivem sentadas sobre verdadeiras bombas-relógio. Todos
os dias, os bancos se expõem a um conjunto incalculável de riscos, em especial
nas operações básicas, como financiamento de hipotecas e toda sorte de
empréstimos. Curioso é que, no longo prazo, os bancos jamais ganharam um centavo
com isso. Podem até lucrar muito por um bom tempo, mas esse dinheiro vira pó na
primeira crise. Tudo indica que os Estados Unidos sairão dessa, mas restará um
problema a ser enfrentado. O mercado financeiro ainda não entendeu que os riscos
nesse negócio são infinitamente maiores do que aparentam ser.
Nas previsões os riscos somem – No setor financeiro, as pessoas preferem confiar
em cenários futurísticos, que freqüentemente minimizam os riscos, a se defender
do inesperado. Comparo os banqueiros aos perus. Durante todos os dias do ano, as
pessoas alimentam tais aves, e cada refeição reforça nelas a crença de que a
regra geral da vida é receber comida da espécie humana. Até que o açougueiro
decide abatê-las. A ingenuidade do mercado financeiro, tal qual a dos perus, é
não encarar o fato de que o passado fornece poucas pistas sobre o que virá no
futuro. É preciso livrar-se da idéia absurda de que previsões otimistas bastam
para controlar os riscos. Estudei esse assunto nos últimos vinte anos e concluí
que 27 000 das principais previsões feitas pelos economistas nesse período não
se confirmaram. A maioria delas passou longe do alvo. Nos Estados Unidos,
dizia-se que o preço do petróleo estaria hoje em torno de 30, 35 dólares...
Passou de 120. O número mágico para 2020 diz que o barril não passará de 25
dólares. Dá para acreditar? O problema é que os governos adoram essas previsões
e constroem suas políticas baseados nelas. No dia-a-dia as pessoas incorrem no
mesmo erro.
Prever e errar, é só começar – Os modelos estatísticos conseguem prever com
bastante precisão as chances de sucesso em jogos de azar, a altura a que chegará
uma criança na idade adulta ou a temperatura do dia seguinte. Em todos esses
casos, as projeções podem se apoiar numa lógica já observada no passado, uma vez
que obedecem a um padrão bem determinado. Mas, em um mundo tão complexo como o
atual, são muitos os eventos inesperados e estes passam invisíveis aos olhos dos
estatísticos. Tais situações, impossíveis de ser previstas, podem ter um enorme
impacto na vida das pessoas, não apenas em economia. Os modelos matemáticos são
incapazes de prever também a duração de uma guerra, as chances de alguém
alcançar sucesso na carreira ou a temperatura na Terra milhares de anos mais
tarde. Já tive diversas discussões com Al Gore (ex-vice-presidente dos Estados
Unidos), que acredita ter nas mãos uma equação perfeita para prever o
aquecimento global. Ele está errado. Futurologia é astrologia. Para mim, está
claro que as pessoas devem fugir do excesso de planejamento apoiado em cenários.
Se um médico vai atrás da cura de uma doença e encontra, por acaso, respostas
para outra, evidentemente não deve desprezar o achado. O mundo estaria bem mais
evoluído se cientistas e acadêmicos não fossem tão fechados à sorte e soubessem
se beneficiar mais dela.
O desprezo às previsões – Errei muito quando trabalhava em Wall Street,
justamente por me fiar em cenários que quase nunca se confirmavam. Foi com
alguma dor, portanto, que aprendi a ignorar solenemente as previsões
financeiras. Ganhei dinheiro sendo 90% das vezes extremamente conservador e 10%
radicalmente ousado. Nas crises, fui o que menos perdeu dinheiro. Os mais
bem-sucedidos de Wall Street são aqueles que, como eu, desprezam as previsões.
Trata-se de uma minoria. Longe dos centros financeiros, as pessoas e empresas
sabem que não se vai longe com adivinhação. Nos Estados Unidos, o melhor exemplo
disso é o Vale do Silício. Lá, sou aplaudido. Em Wall Street, vaiado. Os bancos
estão atrasados. No Pentágono, onde participo de um comitê de consultores,
modelos para prever o futuro que jamais se provaram eficazes foram descartados
há muito tempo. A própria Associação Americana de Estatística me apóia. Na
ausência de uma previsão confiável, eles preferem não usar nenhuma. É o que
tenho dito aos integrantes das duas campanhas presidenciais: não façam políticas
públicas fiando-se em previsões.