Falta educação financeira ao brasileiro, diz presidente da Bovespa

 
Segundo Raymundo Magliano, ainda falta educação financeira aos brasileiros.
Prosperidade da bolsa é resultado da estabilidade da economia.

 

Depois de um longo período de instabilidade e três tombos em anos consecutivos, o mercado de capitais brasileiro vive uma inédita fase de prosperidade e estabilidade. O presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho, chama esse crescimento de "interessante", mas os números mostram mais que isso: nos últimos quatro anos, a Bolsa de Valores de São Paulo passou dos 11 mil pontos para o recorde de 45 mil pontos.

 

Em 2002, o valor das empresas negociadas na bolsa brasileira somava cerca de R$ 438 bilhões. Ao final do ano passado, com a abertura de capital de quase cem empresas, esse valor já havia batido a casa dos R$ 1,5 trilhão.

 

O início desse período próspero coincide com a 'estréia' de Luiz Inácio Lula da Silva na presidência da República. Para Magliano, não é uma coincidência, mas o resultado da estabilidade econômica e das condições que vêm sendo criadas para a economia nacional desde o governo Fernando Henrique Cardoso. Acompanhe a entrevista que o presidente da Bovespa concedeu ao G1.

G1: Os quatro anos de governo Lula foram bastante favoráveis ao mercado de ações – basta vermos que o Ibovespa fechou em alta pelo quarto ano consecutivo. Como o senhor avalia esse crescimento?

Magliano: Para nós foi muito interessante o desenvolvimento da bolsa, não só em termos de abertura de capital das novas empresas, que é a função precípua da Bovespa. Nesse período, também cresceu o acesso às pessoas, a pequenos investidores para que pudessem aplicar seu rendimento tendo sempre uma visão em longo prazo. Tivemos um número expressivo de novos investidores, a criação de vários clubes de investimento, e a entrada de várias empresas. É a união disso que dá sustentabilidade para a bolsa em longo prazo.

G1: De 2001 para cá, nós vimos a abertura de capital de quase cem empresas, um crescimento e tanto, principalmente se compararmos com o que vinha acontecendo nos anos imediatamente anteriores. Quais são as bases desse crescimento, ou seja, o que existe agora que não havia antes?

Magliano: As condições dadas pelo governo anterior, desde o governo Fernando Henrique, a estabilidade econômica, o controle da inflação, o decréscimo dos juros, dá condições para que você comece a olhar regras estáveis e possa ter uma visão mais estável dos seus investimentos. Concomitantemente, há o trabalho que fizemos na bolsa, de conscientização e divulgação – não vendendo ações. Esclarecimento e educação dão mais confiança ao investidor para pensar na bolsa como alternativa.

O resultado desse período é muito bom, é o que a bolsa esperava. Quatro anos atrás, havia 350 clubes de investimento. Hoje são cerca de 1640 clubes. Houve uma entrada muito grande de pessoas físicas no mercado de capitais. Isso é um resultado muito positivo da estabilidade da economia e da liquidez do mercado internacional.

G1: Podemos falar em ações pontuais do governo que favoreceram esse movimento?
Magliano: Podemos falar, por exemplo, primeiro da diminuição do imposto sobre ganhos de capital, de 20% para 10%. Também as duas emissões dos PIBBs, que aumentaram muito a entrada da pessoa física, porque tinha a garantia de não perder. E a entrada do Banco do Brasil no Novo Mercado.

O que a gente cada vez mais observa é que se houver uma política econômica estável, o mercado começa a trabalhar isoladamente. A gente pode ver que essas crises políticas não contaminaram nem o mercado de ações, nem o mercado financeiro, os mercados estão amadurecendo.

G1: Mesmo tendo crescido bastante, a participação da pessoa física no Brasil ainda é muito pequena, se comparada aos EUA e países europeus. Porque isso acontece?

Magliano: É uma questão de educação. A gente sente que infelizmente a educação brasileira é deficiente, isso não facilita as pessoas conhecerem mais o que é a educação financeira. Quem perde mais com isso é o Brasil. Nós todos estamos perdendo. Estamos vivendo hoje o mundo do conhecimento, então o país perde na sua totalidade.

G1: O que nós podemos esperar para o mercado de capitais para os próximos anos?
Magliano: Estamos sentindo uma mudança cultural do empresariado muito grande. O empresário está vendo a bolsa como canal permanente de suprimento de capital, que vai facilitar o desenvolvimento da empresa. Acreditamos que o número de empresas que irão abrir capital esse ano seja maior que o passado. Também vamos ter número mais expressivo de pessoas físicas participando.

G1: O mercado é capaz de sustentar esse crescimento dos últimos anos? A bolsa abriu o ano batendo recordes, mas parece que perdeu a força.

Magliano: Tem muitas companhias para ser abertas ainda. Temos 400 empresas listadas em bolsa, deveriam ser 1.500. Fizemos uma pesquisa uns 10 anos atrás e, naquela época verificamos que tinha umas 5 mil empresas que poderiam abrir capital.

G1: O que a bolsa ainda tem para reivindicar junto ao governo em prol do mercado?

Magliano: A única coisa que estamos pedindo agora uma redução maior do imposto sobre ganhos de capital, de 15 para 10%. O restante depende de nós mesmos, entidades, instituições, sociedade civil. Precisamos tirar essa dependência do governo.

 

Laura Naime do G1, em São Paulo
http://g1.globo.com/Noticias/0,,MUL2912-5599,00.html

 

 

 

WebFinanceiro.com - Controle Financeiro OnLine - WebFinanceiro.com